odisséia
Blood runs through your veins,
that's where our similarity ends
Blood runs through our veins
Blood runs through your veins,
that's where our similarity ends
Blood runs through our veins
- Editors
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Ontem eu passei alguns segundos me perguntando se a literatura estava influenciando a realidade. Eu sou uma desligada completa na rua, sempre fui. Ando sempre com fones de ouvido berrando músicas e, normalmente, passo meu tempo em ônibus lendo, absorta. Ontem à noite eu estava exatamente assim, alheia ao que acontecia ao meu redor, quando fui rapidamente chamada à realidade de uma forma bem... estranha.
Sentada no lado do corredor do banco, no intervalo entre uma música e outra, ouvi um barulho de uma coisa caindo no chão ao meu lado. Virei para olhar e avisar a pessoa que tinha deixado cair o item... quando vi que era um revólver.
Desviei o olhar bem rápido, então não me lembro dos detalhes. Não parecia possível que ali, aos meus pés, estivesse um revólver. Mas era. O assaltante tinha subido no ônibus para tentar escapar dos policiais que o perseguiam por ter roubado carros no sinal. Era um rapaz com cara de inofensivo, caderno de estudante na mão.
Do revólver, só me lembro de ver partes marrons e do som pesado que ele fez ao cair no chão do ônibus, com o cano virado diretamente para o meu pé direito. Fiquei em choque e simplesmente não reagi. Não chorei, não tremi, não disse nada. Só arregalei os olhos e assisti os policiais - educados! - prenderem o assaltante e levarem ele embora para a viatura, enquanto tentavam acalmar uma moça que chorava com falta de ar. Ela estava em pé ao meu lado quando a arma apareceu também aos pés dela.
Meu choque não passou rápido e, com certeza, ainda há resquícios. Não foi nada, nada de grave aconteceu. Só um susto e todas as possibilidades passando agora pela minha cabeça. As conversas pós-incidente foram também chocantes. Eu tirei o fone e fechei o livro - claro. E os rapazes do ônibus conversando sobre como tinham certeza de que os policiais iam "encher o cara de porrada", rindo.
Eu não fiquei com pena do assaltante. Nem apavorada com a situação. É horrível pensar nas possibilidades, mas foram as reações de todos os envolvidos que me fazem sentir estranha. O que a nossa reação significa? O que ela diz sobre nós? O que a minha reação diz sobre mim?
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Estava lendo, no momento do incidente, o excelente livro O mais longo dos dias, de Cornelius Ryan, sobre o desembarque na Normandia em junho de 44. Como a história da tomada de Berlim pelos russos em 1945, no livro A última batalha do mesmo autor, o relato é horripilante, sensacional, assustador e emocionante.

Real e surreal, especialmente ao olhar para a o revólver ontem. Lá estava eu, lendo sobre soldados americanos decapitados por rajadas de metralhadoras alemãs na praia Utah antes mesmo de conseguirem sair da água. E aquele revólver silencioso que eu nem conseguia olhar direito, que me fez querer fechar os olhos novamente. Surreal.


2 Comentários:
ai helena, que situação... onde foi? que bom que tá tudo bem =\
Tá tudo bem sim, nada de fato aconteceu. Ainda bem :)
Isso aconteceu na saída da São Gabriel, viradinha para pegar a 9 de Julho... 7:30 da noite...
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