Não sei como foi o fim de semana em São Paulo, quando começaram as rebeliões nos presídios e os assassinatos planejados. Mas ontem, segunda-feira, as pessoas entraram em pânico. Provavelmente isso aconteceu porque os tais ataques deixaram de ser direcionados a policiais e presídios e passaram a acontecer do lado das pessoas comuns, com os ônibus que todo mundo pega todos os dias.
Começou devagar o medo. Algumas pessoas tiveram que ficar em casa porque não havia ônibus disponível. Mas ninguém parecia estar muito preocupado durante a manhã, era só conseqüência do fim de semana. Por volta do meio-dia, no entanto, chegavam os relatos de novos ataques, dessa vez no metrô. A apreensão começou a flutuar entre as pessoas como se fosse uma fumaça visível.
Aos poucos, chegavam as ligações de amigos, parentes e agregados, contando isso ou aquilo que tinha acontecido não-sei-onde. Os ataques em Higienópolis abalaram as pessoas, afinal, Higienópolis é bairro nobre, supostamente seguro.
Aqui em São Paulo tem disso: bairro seguro e bairro perigoso. Isso soa estranho para uma carioca como eu, que vive em bairros caros e elegantes que nem por isso deixam de ser perigosos. Há muito tempo, logo que mudei para cá, comentei com um amigo também exilado que em São Paulo se tem a ilusão da segurança em determinados bairros, que tudo parece lindo lá. Mas que nem por isso a cidade deixava de ser perigosa. As pessoas não estão imunes.
O caos de ontem parece agora ter sido muito mais uma reação apavorada do que uma ameaça verdadeira. Muitos boatos foram desmentidos na TV, mas continua difícil de saber exatamente o que aconteceu. As redações dos jornais publicaram muita coisa como verdade, a polícia desmentiu muita coisa que a envergonharia, o governador parecia tranqüilo... Difícil avaliar.
O que aconteceu, na minha visão, foi o seguinte: cheguei 6 e pouca da manhã na rodoviária e tinha uma fila ridiculamente grande para a compra de bilhetes do metrô. Eu não sabia, mas era por falta de ônibus na zona da rodoviária e principalmente na zona sul.
O metrô estava lotado, mas tranqüilo. Ao chegar numa reunião, num lugar atrás do aeroporto de Congonhas, fiquei sabendo que o problema continuava, que não tinha acabado no domingo a noite. Ao longo do dia, começaram a surgir os boatos na empresa.
Primeiro foram as estações de metrô metralhadas. Depois do almoço, as pessoas começaram a ficar muito, mais muito tensas com as notícias da internet e que chegavam por telefonemas de parentes e amigos em outros pontos da cidade.
Chegaram relatos de mais estações de metrô metralhadas, escolas e universidades fechando, alunos que estavam presos dentro da escola até que pais ou responsáveis fossem buscar. Muita notícia que não tinha na internet e foi aparecendo depois.
O pessoal do aeroporto ligou para o pessoal da empresa avisando que ninguém entrava nem saia de Congonhas, que tinha tido ameaça de bomba. Às 3 horas da tarde, todo mundo começou a se movimentar para ir embora. Só de carona, porque nem sinal de ônibus. Foi uma corrida por táxis (e olha que táxi em sp é caro!).
O engarrafamento na cidade era uma coisa monumental, épica. Só consegui chegar em uma hora e meia porque estava de carro, senão teria sido mais rápido ir a pé. O pânico em algumas áreas da cidade é bem grande, gente chorando só de ler as notícias. Não vi nada na rua além de alguns PMs de arma na mão interrogando um rapaz com roupas simples. Não dá muito para saber o que aconteceu de fato, era muito boato. Mas ninguém, nem eu, quis arriscar a própria pele de bobeira.
Fiquei sabendo por amigos que a situação em Higienópolis e na Freguesia do Ó era muito tensa. Helicópteros em Higienópolis, pontes do rio Tietê fechadas, essas coisas sinistras. Até as 8 da noite, o engarrafamento na cidade continuava monumental, mas magicamente não tinha mais ninguém nas ruas às nove. É que houve um boato de que o governo tinha decretado toque de recolher às oito, muitas empresas efetivamente liberaram seus funcionários às 4 da tarde.
No entanto, não fiquei sabendo de mais nenhum ataque. Houve sirenes a noite toda, mas essa foi provavelmente a noite mais silenciosa que tive desde que me mudei para o lado da Avenida 9 de julho, uma das vias mais movimentadas do centro da cidade. Não havia nenhum ônibus, nenhuma pessoa. Até madrugadas são mais animadas do que isso...
Muita gente se preparou para trabalhar de casa nesta terça, mas as coisas acabaram se acalmando. Os ônibus voltaram para as ruas e, lentamente, as pessoas voltam também. Todo mundo está consultando sites de notícias e conversando sem parar sobre os boatos, novos boatos, o que aconteceu, quanto tempo levaram para chegar em casa, o que foi dito no Jornal Nacional.
Estranho.
Vim do Rio para sentir medo em São Paulo.