Ficção
Havia muito que queria interromper o discurso dele, mas não conseguia. Engolia o vinho junto com as palavras, sentia-as entalar na garganta como um bolo de letras com pontas afiadas.
Fazia o sinal para o garçom encher novamente a taça, sempre em silêncio. Qualquer som traria uma torrente interminável de palavras vomitadas com vinho e vontade de sair correndo.
O vestido longo apertava seus pulmões e a impediam de respirar normalmente. Respirava em goles curtos de ar, misturados às vezes com o vinho cada vez mais seco. Fechava os olhos às vezes para impedir que seu peito mostrasse a cadência acelerada da respiração.
Calculava na cabeça que todas as suas palavras levariam bem mais do que o número de páginas de um livro para chegar ao fim. Quero apagar, pensava. Quero ser poupada, pensava.
Mentira.
Queria mesmo ser engolida, devorada e regurgitada para que tudo começasse novamente. Incapaz de se conter mais, tocou levemente a mão dele com os dedos gelados.
Sabia que ele entenderia. Levantou o olhar e gritou silenciosamente o que ele não imaginava mais ser possível. Vem comigo, vamos embora. Me leva para o sol.
Marcadores: Blá blá blá


0 Comentários:
Postar um comentário
Links para esta postagem:
Criar um link
<< Início