42 dias
Quando os primeiros pingos cairam, os olhos por trás do vidro os seguiam divertidos. Algumas horas depois, o ritmo da chuva havia parecia o de uma ducha forte e constante. Durante os primeiros dois dias, ela não fez nada além de olhar pelo vidro e admirar as gotas pesadas que caiam sempre no mesmo ritmo.
Depois da primeira semana, teve que fechar completamente as janelas. No vigéssimo dia, a água começou a passar por baixo das esquadrias. Formou-se a primeira poça. No dia 32, a água escorria pelas paredes para dentro da casa. Os panos não conseguiam mais conter a torrente, uma cascata foi formada e o chão da sala estava coberto por uma fina camada de água.
No dia 40, a água já alcançava a cintura e não era mais possível cozinhar ou dormir. A cama estava submersa há dias, os sofás inutilizados e os tapetes aprodrecidos. Enquanto andava pela casa, lutando contra os móveis flutuantes, pensava nos anfíbios que roçavam nas suas pernas e os insetos que subiam pelas suas costas. Não penteava os longos cabelos há tantos dias que a umidade havia transformado os cachos em aglomerados de cabelo embaraçado e desgrenhado.
E finalmente, no 42o. dia, a porta da frente se abriu. Ela respirou fundo e se voltou para a porta, antecipando em sua mente o que estava prestes a ver. Seus lábios se contorceram num sorriso hesitante enquanto sentia a água escorrer. Fechou os olhos para não perder mais nada.
Marcadores: Devaneios


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