Ladybugs
Há muitos meses eme sentei no banco da praça e decidi que veria o tempo mudar. Veio sol, nuvens, luar, estrelas, fumaça, chuva, lama, vento, folhas caídas, mais chuva, mais sol e tudo de novo. Veio o calor intenso, o suor noturno. Me deitava no banco, mas não conseguia ficar parada. O calor parecia vir de dentro do meu corpo e invadir o restante do mundo, como um aquecedor de ficção científica.Aí veio o vento e as noites ficaram agradáveis. Já não me retorcia deitada na grama, ficava comportada sentada no banco. Não dormia, porque as estrelas não deixavam. Dormir é para os fracos, gritava a música nos meus ouvidos, e eu acreditei. Não dormia, mas sonhava. Sonhava o dia inteiro enquanto via as crianças, os velhinhos, as babás, os cachorros bravos, os vendedores de sorvete e água de côco. Sonhava com um banco de praça mais legal. Passei a olhar mais para as árvores do que para as pessoas, porque elas eram menos previsíveis. E nas árvores vi de muito longe um mundo diferente.
As formigas e joaninhas estranhos brincavam o dia todo, subindo e descendo. Se protegiam nos buracos do tronco, tomavam sol do alto dos galhos, nadavam nas piscinas em torno das raízes. Um dia não aguentei mais ficar sentada olhando e fui para perto da árvore. Eu também queria participar daquela vida. Os insetos me olharam e começamos a conversar. Não falávamos, desenhávamos. Criei histórias lindas com um graveto na terra, as joaninhas usavam as trilhas como novas rotas de passeio.
Sorri e deixei de prestar atenção no tempo. Meu telefone ficou sem bateria e eu não reparei. Deixei de comer, mas não sentia fome. Eu queria estar ali e só dormia quando elas dormiam. À noite elas me cobriam o corpo todo e eu virava uma forma humana preta e vermelha, fervilhante. Sem me mexer, eu sentia meu corpo sorrir por inteiro.
Um belo dia de sol eu disse que nunca mais voltaria para casa, para o meu mundo. Queria ficar ali. Foi uma declaração de amor fraternal e um elogio às novas amizades. Elas me supriam e eu era feliz. Mas eu não tinha notado que o inverno havia chegado. Não havia comida para mim, não havia abrigo grande o suficiente, as pessoas me olhavam estranho. Os insetos também me olharam estranho. Esperavam que eu voltasse para casa e continuasse a vida que deveria ser a minha. Gostavam das minhas brincadeiras, mas estavam cansados já daquela presença gigantesca. Queriam sua rotina de volta, queriam as memórias e nada mais.
Eu entendo, menti. Me levantei de vagar, sacudi as roupas rasgadas para que caíssem as folhas mortas e parti.
Marcadores: Devaneios


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