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Quarta-feira, Março 21, 2007

Madame Deficit

Marie Antoinette recebeu muitos apelidos em vida, a maioria continuou em vigor após sua morte. Madame Deficit era um deles, criado pelos parisientes mortos de fome devido à escassez da farinha. L'Autrichienne era outro, bem mais ofensivo (pode ser traduzido como "a austríaca" ou como um trocadilho: "a puta [chienne = cadela = puta] austríaca"). Ela possivelmente foi uma das figuras históricas mais odiadas de todos os tempos, apesar de agora estar ganhando novas dimensões. O tempo faz desaparecer as tendências políticas e hoje é possível tentar encará-la apenas como uma mulher.

E foi isso que fez a escritora Antonia Fraser na excelente biografia "Marie Antoinette: the journey". O livro inspirou a Coppola a fazer o filme, que pude ver ontem na enorme tela do cinema. E que belo filme, apesar de todas as omissões e adaptações.

A bela fábula da nobre Revolução Francesa é cruel de todos os ângulos que se analisa. E no entanto a realeza européia era predatória sim e é impossível imaginar hoje um mundo políticamente dominado pelo absolutismo monárquico. O que é assustador é o volume de sangue derramado - e os requintes de crueldade usados - para chegar a este tão nobre fim republicano.

Os relatos das revoltas em Paris e no restante da França durante os anos mais radicais da révolucion são de gelar o sangue, independentemente de quem foi a vítima. A morte de uma das favoritas de Antoinette, a Princesa Lamballe, foi algo de selvagem e medonho. E, ao contrário da Lamballe, houveram milhares de vítimas que mal sabiam porque estavam sendo atacados...

Marie Antoinette e Louis XVI mereciam morrer? Sem atacar diretamente a questão, o filme da Coppola fala sobre isso. Como culpar uma menina de 14 anos pela sua falta de interesse pela política? Como culpar uma moça de 18 que nunca viu o lado de fora de um palácio pelas crianças passando fome nas ruas? Como esperar que o Rei e a Rainha fossem diferentes do meio onde foram criados e mantidos confinados durante toda a vida?

As cenas da etiqueta de Versailles causam risos no cinema, mas são mesmo exemplos tristes da completa falta de foco de toda uma classe. Assim como causa tristeza imaginar a perspectiva daquela pequena família, completamente perdida na frente de uma forma radicalmente nova de entender o mundo. A ex-arquiduquesa austríaca, ex-delfina da França e ex-Rainha da França não poderia ter uma posição política que não fosse conservadora.

O filme é excelente ao mostrar sensações em vez de fatos. A sensação de tédio na vida vazia da corte. A sensação de frustração da delfina e rainha que não conseguia cumprir sua única função: ter herdeiros. O medo, o isolamento, a inconseqüência, a simples vontade de se divertir... E Kirsten Dunst cumpre bem o papel da princesa inocente e despreparada. O restante da família Bourbou poderia ser melhor, ou pelo menos mais gordos. Os cenários são magníficos. As roupas idem. E a trilha sonora, grande fonte de medo para mim, é perfeita.

No fim, é um filme melancólico como todos os da Coppola. Mas não achei um filme afetado, pelo contrário. Os silêncios não me incomodaram, apenas contribuíram para criar um clima bem orquestrado.

Corra para o cinema e depois passe na livraria para levar a pérola de Antonia Fraser. Imperdível.

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