Segredos
Na primeira vez, estava andando pela rua despreocupado. Viu duas mulheres discutindo calorosamente e resolveu interromper a música que vinha dos fones de ouvido para ouvir o movimento das pessoas e as vozes. Gostou de ouvir a discussão e mais ainda de ouvir aqueles comentários inusitados dos passantes, recortes de conversas sobre as quais só poderia conjecturar. Passou a andar devagar e tentar manter um ritmo diferente daquelas pessoas mais próximas. Assim havia mais variedades e seus pés não ficavam tão cansados.
Não sabia o porquê, mas se sentia muito desconfortável quando andava exatamente no mesmo ritmo em que um desconhecido na rua. Automaticamente mudava seu ritmo, trocava as pernas, tropeçava, parava para amarrar os cadarços do sapato batido de trabalho. Enquando se agachava, percebia alguns olhares furtivos que o contemplavam por segundos e os esqueciam imediatamente.
Não chamava atenção dos passantes, acabou adquirindo uma discrição investigativa que seus amigos não suspeitavam ser possível num rapaz tão alto. Tornou-se tão ousado que esticava o pescoço e encarava lábios, pescando palavras. Era seu esporte favorito e após 15 minutos ele parava para anotar as frases mais dignas de nota.
Andava chutando pedrinhas e de cabeça baixa quando se percebia observado, como se ainda fosse um menino. Como se fosse inocente. Andava, anotava, andava, anotava, observava e mastigava. Passou a montar histórias com as frases capturadas, sagas inteiras de famílias e dinastias. Deu para andar até outros bairros, ouvir outras conversas. Sentia sede de palavras como outros sentem de cerveja. Foi a outras cidades, outros estados, outros países. Preencheu tantos cadernos que não havia mais espaço em sua casa. Os vizinhos comentavam sobre sua solidão e aparente esquisitice, ele só sorria.
Foi na rua de sua casa em que ele ouviu finalmente as palavras que o libertariam. Foram ditas em voz alta, por uma mulher estridente, mas não importava. O que ele ouviu bastou, por fim. E assim ele voltou para casa e, com paciência, levou folha por folha dos escritos de anos até o mar. Lá todas o falatório foi afogado sem piedade, para que ele pudesse voltar a não ouvir.
Marcadores: Devaneios


0 Comentários:
Postar um comentário
Links para esta postagem:
Criar um link
<< Início