Wheels
Pode ter sido quando eu pisei no calçadão pela primeira vez. Talvez tenha sido quando encostei as mãos no guidão da bicicleta. Ou ainda quando o primeiro gole de água de côco gelada chegou na minha garganta. Realmente não sei.
Há tardes em que as coisas são assim: você está há muito tempo sem sentir e de repente vem o tsunami. A maresia, o sol, o vento, o calor, o suor, a borracha do guidão, a borracha dura do selim, a camiseta branca, o chinelo de dedo, a areia que consegue entrar em quase todos os lugares. Há também tudo aquilo que é inexplicável e clichê, tudo o que entra como informação visual e é imediatamente transformado em emoção.
Sorri em silêncio. Pedalei. Sorri mais e acelerei.
Por falta de prática, perdi o controle dos pedais com pontas afiadas de ferro e logo meus dois calcanhares estavam cobertos de sangue. Não havia dor de verdade, só o sangue muito vermelho e quente pintando os calcanhares como tinta guache. O fluxo do líquido foi puxando mais líquido dentro do meu corpo até que os nós da minha garganta foram se desatando. Finalmente, pensei. Liberdade. Alívio.
Respirei fundo, continuei pedalando até chegar na areia. Larguei a bicicleta no chão mesmo, quem se importa?, fui correndo pela areia, que entrava nos machucados. Antes de mergulhar os pés na água gelada, olhei para eles e vi os calcanhares pintados. Bonitos, pensei. Sorri e pulei com os dois pés juntos dentro da água, sentindo aquele choque gelado percorrer meu corpo.
Eu estou viva, quis gritar.
Sorri debaixo d'água e prendi a respiração. Deixei o frio me abraçar até que não o sentia mais. Voltei, retomei o caminho, a bicicleta, a vidinha. Voltei sorrindo para mim mesma. Voltei e vi a velhinha corcunda, vi o menino de rua, o casal estrangeiro, as prostitutas, as moças de família, as crianças suburbanas, os vendedores de matte e queijo coalho. Vi os barcos dos pescadores, os iates, os soldados. Vi os hippies e os surfistas. Vi a juventude dourada e os caras das gangues. Vi os mendigos e o entregador da lavanderia. Vi e sorri como uma boba, como se entendesse a vida.
Marcadores: Devaneios


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