Viajante
Não é verdade que não há felicidade no mundo, eu sei. É que, em comparação com os infelizes e miseráveis, as pessoas felizes são raras. Observo as pessoas que passam por mim na rua como se estivesse invisível, reparo impunemente nas expressões das bocas e olhos. Uso alguns segundos para imaginar o que se passa pela cabeça de cada um e sigo em frente, no mesmo ritmo.
A maioria está séria. Os grupos sorriem, mais ou menos de acordo com a intimidade ou o avançado da hora. Há as moças que choram na rua. Há os homens tímidos, os distraídos. Os únicos que devolvem o olhar inquisitivo são os homens tarados e as mulheres inseguras.
Coro quando sou pega no flagra neste voyerismo inocente. Quantas vezes não fui eu o objeto de curiosidade, quando a música alta nos fones de ouvido me impele a dançar enquanto ando ou quando a vida não me deixa esperar a chegada ao ninho antes que desabe alguma torrente de lágrimas por qualquer motivo fútil que me deixa triste.
Hoje mais uma vez fui descoberta nessa observação cotidiana, uma mocinha jovem que me olhou com uma mistura de desapontamento e desafio. Nos poucos segundos em que a vi, ela esperava um ônibus na beira de estrada. Eu estava em um ônibus num estranho engarrafamento interestadual. Ah, a modernidade. Naquele momento eu senti todo os quilômetros de distância física e psicológica entre nós, me senti um pouco censurada, me senti questionada.
É uma bela tarde de primavera na Rodovia Dutra, eu fugi dos relógios e me engasgo com a vista ainda estonteante do alto da Serra do Mar. De longe, o Rio de Janeiro ainda é lindo. De perto também, mas é uma beleza cada vez mais seletiva.
Eu estou aqui, mas também estou no futuro. O futuro é o meu brinquedo favorito, mesmo quando parece um emaranhado insolúvel. Eu sonho com alguns mimos possíveis, alimento o gremlin feliz e bonzinho que vive no meu estômago. Hoje eu ouço a playlist de músicas para dançar porque estou feliz. Eu gosto de estar em trânsito, in between. Aqui no meu cantinho confortável do ônibus, eu ouço minhas músicas, olho a paisagem, tiro fotos e escrevo sem me preocupar em mostrar. Aqui eu não mostro nada, mas demonstro tudo para os desconhecidos passageiros.
Aqui eu estou sozinha, mas não solitária. Toda uma vida ficou no Rio, toda outra vida me espera em São Paulo.
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