.a nona na sala
Eu nunca tinha ido à Sala São Paulo, tradicional local de apresentações eruditas na cidade. Quando a Cecília me ofereceu um ingresso de imprensa na mamata, não pestanejei. Todos os ingressos vendidos estavam esgotados há tempos, parece. Era Beethoven ao vivo com Kurt Masur, repeteco do fechamendo do festival de música clássica de Campos do Jordão, onde a Luiza trabalhou.
A casa é linda, linda. Um prédio clássico enorme, reformado com algumas estruturas modernas que, milagrosamente, conseguiram não estragar o visual. Quando chegamos, esbaforidos e atrasados, a orquestra ainda estava socializando com amigos e família no saguão principal. Ufa, que alívio. Encontramos nossos lugares (largos e confortáveis) e lá ficamos. A sala está lotada e o burburinho é constante. Mas quando as luzes diminuem, o silêncio impera.
Entra a orquestra, toda de preto, entra o coral, idem. Entra o regente, um senhor altão que um dia deve ter sido um homem robusto. Barba, carequinha de vô e duas mãos que tremiam. Sim, parece mesmo que ele tem alzheimer, a confirmar.
As primeiras notas já foram um desbunde. E só melhorou. Ouvimos a nona completa, sem intervalos, com uma orquestra gigantes - segundo o apresentador, normalmente a orquestra é diminuída para tocar essa sinfonia, mas o maestro curtiu tanto o trabalho do pessoal que decidiu manter todos. Eram braços e instrumentos que se moviam em sincronia, todos elegantes e concentrados. Em dado momento, entram as vozes principais e lá ficam sentados nos olhando com meio sorrisos até que chegue sua parte.
Perdi a conta de quantas vezes fiquei arrepiada, de quantas vezes senti meus olhos se encherem de lágrimas. Mas não era tristeza, era aquela beleza sem fim e tão diferente do que se vê no dia-a-dia. Algo realmente extraordinário. Da fila N, eu via as dobras do vestido de cetim verde da soprano e me sentia em outro universo. Olhei particularmente para uma violinista oriental, de rabo de cavalo, que se movimentava com tanta intensidade em sua cadeira, dava vontade de se mexer como ela.
O maestro quase não se movimentava, também não usava a baquetinha de condução (isso deve ter um nome, mas não sei qual). Vi ele conduzir com sinais discretos e as mãos trêmulas. Fragilidade explícita, mas nem por isso ele deixou de controlar completamente os mais de 100 músicos presentes.
O coral foi um desbunde. Imenso, forte, impressionante. E todos os detalhes da música podiam ser ouvidos com nitidez, apesar do som poder ter sido ligeiramente mais alto. Não importa, não prejudicou. Foi sensacional, não tem muito mais o que dizer. Reforçou meu amor pela obra de Beethoven e me deu a certeza de que eu tenho que parar de ser bunda-mole e fazer isso mais vezes. Concertos não faltam, falta ir lá e assistir.
Foram mais de 5 minutos de aplausos de pé. O maestro e as vozes entraram e sairam do palco umas 7 vezes para continuar recebendo aplausos. A orquestra saudou o maestro batendo os pés no chão, com sorrisos. E dele vimos sorrisos também, apesar da fragilidade que o fez quase cair do pódio uma vez.
Ao sair de lá, havia apenas o silêncio. Não encontrei palavras para dizer nada, todas elas foram afogadas pela música e os sentimentos que vieram. Levei algumas horas para poder voltar ao normal, mas na verdade acho que nunca vou voltar muito bem ao normal. Ainda bem.
E, depois disso, me recuso a pagar para ver qualquer coisa menos emocionante que isso. Uma palhinha, com Karajan. Mas nenhum vídeo se compara a ver ao vivo.
Marcadores: beethoven, concerto, Música, música clássica, são paulo


1 Comentários:
Sabe o que me impressiona? Q a maioria das pessoas passa por esse mundo sem sentir tudo isso que você descreveu.
Você me lembrou que eu não quero ser mais uma dessas pessoas, preciso, preciso ver isso. Obrigado.
ps:Para efeito de curiosidade minha arroba é gustalves e foi da sua arroba que eu vim.
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