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Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Fait accompli

Eu sonho com a areia branca e a água verde azulada, eu sonho com o futuro e com sorrisos. Eu sonho com harmonia. Eu olho para cima com firmeza, evitando dar atenção ao monstrinho que está começando a ficar óbvio debaixo do tapete. Mas não tem jeito, às vezes ele me pega de surpresa. E aí eu me lembro de palavras que acompanharam minha adolescência, de que "fato consumado eu não aceito".

E agora que um pequeno fato consumado abriu as portas do inferno, como fica?

Todas as outras questões empalidecem diante da única que eu não tenho como lutar contra. Às vezes eu odeio a ordem natural das coisas.

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Segunda-feira, Julho 23, 2007

I’m not what you think

Pare de tentar adivinhar. Pare de me olhar como se você entendesse.

Você não sabe da missa a metade. E você se acha perspicaz.

Mas você não vê que não há mistério. É só isto mesmo. É vazio assim mesmo.

I'm not what you think. Definitivamente.

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Sexta-feira, Julho 06, 2007

Depois de dois dias…


Day 112 - Collage





... sou só dúvidas.

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Quinta-feira, Junho 28, 2007

Ai

Começou com a garganta, logo foi para a cabeça. Escorreu para dentro do ouvido, desceu até o pescoço e se espalhou pelos ombros. Atacou o braço esquerdo, boa parte das costas ficaram paralizadas. Atacou de surpresa a batata da perna ao mesmo tempo em que chegava na mão direita. E quando passou a garganta, começou o estômago e os olhos.

Dói, tudo. Falha múltipla de órgãos, mas não o suficiente para me convencer a tomar o Tandrilax. Ainda não.

Dói tudo, mas não o suficiente para que eu deixe de sonhar com areia branquinha, mar transparente e dias de tranquilidade.  Dói mas eu continuo andando com a mochila branca para todo canto, pelo menos uma vez por semana. Dói, mas amanhã eu faço questão de sair e ver o dia.

Quem sabe assim o corpo não desiste e me deixa em paz? Não aguento mais ficar doente!

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Segunda-feira, Junho 18, 2007

Espelho

Só por hoje eu quis ter cabelos de fogo.

Só por hoje eu quis sentir os cachos caindo nas minhas costas.

Só por hoje quis uma franja que mal me permitisse ver.

Só por hoje o espelho podia não existir.

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Quinta-feira, Junho 14, 2007

Estória

Antes

Vazio. Sono pesado, a dúvida filosófica e os dias iguais aos outros. Todo dia faz tudo sempre igual. Tédio. Compra roupa, sai para jantar, vai ao cinema, toma café, corre para pegar o ônibus. Pensa na vida, pensa em voltar, acha melhor não. Olha para o céu do verão e tenta imaginar quando é que a tempestade vai chegar. Se agarra numa nuvem vagabunda como se fosse tempestade, ri da ilusão, hiberna no calor. Quando é que a chuva vai vir?

Durante 01

Segredos são divertidos. Laugh at the face of danger. Dança debaixo do temporal, pulando nas poças d'água. Usa um óculos com lentes vermelhas que deixa tudo engraçado. Faz planos mirabolantes, deita inquieta na cama de madrugada sem conseguir dormir de tanta euforia. Respiração acelerada e no coração aquele pontinho preto incômodo que não deixa sossegar. Vira noite para não pensar, brinca com as pessoas como se o mundo fosse simples. Faz contas, respira fundo, tenta se acalmar.

Durante 02

Usa lupa para analisar a pele no espelho e xinga alto. Pouco tempo, pouco tempo. Sente medo de tudo, do bom e do ruim. Revira-se entre os lençóis imaginando a pior hipótese. Questiona tudo, toma remédio para dormir, sorri um sorriso pontual. Usa palavras falsas para cobrir o buraco no coração. Tranca-se em casa para não dar chance ao azar. Bebe, bebe, bebe para poder sorrir. Bebe até desmaiar. Jura que não vai chorar, por que haveria de chorar?

Durante 03

Chora. Mastiga. Cospe. Soluça. Grita. Sussurra. Vomita. Pensa que vai morrer, quer morrer, mas sabe que não vai. Na verdade também não quer. Quer só que tudo seja diferente. Usa as palavras para se manter aterrorizada. Mente, engana, trai, implora, apela. Corre e se esconde. Chora.

Depois

Tem vergonha. Tem arrependimentos. Tem saudades. Olha a noite pela janela e faz uma promessa. Secreta. Cala o coração com a mão de ferro. Usa a razão para machucar o coração. Vira a própria mãe só para poder continuar existindo. Enfia a cabeça no próprio umbigo para não olhar no espelho. Toma decisões, assume compromissos, enche a agenda, veste a roupa social. I pack my case, I check my face. I look a little bit older, I look a little bit colder. Compra um café e um sorvete, vê a vida passar na janela.

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Terça-feira, Junho 12, 2007

Dez coisas

Vi no blog da Natasha e resolvi copiar. Dez coisas que eu não sei, mas gostaria de aprender:

  1. Desenhar

  2. Cantar

  3. Fotografar

  4. Dança de salão/do ventre/flamenca

  5. Gostar de fazer exercícios

  6. Fazer um molho de tomate fantástico, fabuloso

  7. Ter paciência, ser menos ansiosa

  8. Me vestir melhor

  9. Economizar

  10. Me defender, me proteger


E você?

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Quinta-feira, Maio 24, 2007

Private: Um pote até aqui de mágoa

- Um flash, uma piscadela e adeus. É isto mesmo?
- Acho que você não entendeu.
- Que parte?
- Era para ser rapidinho mesmo.
- "Quero ficar no teu corpo feito tatuagem". De henna.
- É por aí. Fui tua escrava por um dia, uma hora, um minuto. Rapidinho.
- Rapidinho para parecer de verdade?
- Sim. O tempo teria mostrado o que você ainda não quer ver. Você não entende? Minha pele, cabelos, pêlos... tudo tem a mesma textura. Tudo sem poros, sem orifícios, sem abertura nenhuma.
- Rapidinho então para que não veja e nem sinta o gosto.
- É. Seu brinquedo, rapidinho. Senão cansa.
- Mas, querida, eu já estava cansado...

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Terça-feira, Maio 15, 2007

A-dieu

Primeiro foi um dedo que vacilou. Depois o outro. O suor da palma da mão fazia a pele escorregar lentamente. "Não", pensava. "Por favor, não". Os segundos se prologavam em horas, os dedos afrouxavam contra sua vontade. Fechou os olhos com o rosto contorcido, não queria ver. Continuava a sentir, fazia força, mas já se sabia vencida. Mais uma vez vencida. Relaxou os músculos e deixou que fosse embora. Tudo já estava terminado há tempos se era possível ir embora assim. Adeus. Adeus. Adeus.

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Quinta-feira, Maio 10, 2007

Em série

I am Jack's furious bile.
I am Jack's nervous throat.
I am Jack's nauseous stomach.
I am Jack's disappointed eyes.

Sou uma colecionadora. Tenho uma mochila enorme nas costas onde guardo meus tesouros. Não são tantos quanto eu gostaria, alguns são até de origem duvidosa.

Ontem eu parei para descansar, pela primeira vez em meses. Coloquei a mochila, tão pesada, no chão e respirei. Por que tão pesada?

Tirei tudo de dentro, espalhei as camisetas, as fotos, os guardanapos, tudo pela calçada. Tudo bagunçado pelo chão, tudo amarrado com barbante forte, mais feio. Por que tão pesada? Por que tanta coisa?

Tá na hora de deixar aquelas meias baratas e furadas pelo caminho.

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Quinta-feira, Maio 03, 2007

If I just lay here…

Ontem eu estava quase dormindo no ônibus quando caiu no meu colo um presente incrível. Era uma caixa vermelha - a melhor e única cor que caixas deveriam ter - com um laçarote digno de filme de papai noel. Desfiz o nó, abri a caixa e quase fiquei cega com o que vi lá dentro. Fechei correndo a tampa e só voltei a abrir na privacidade do meu quarto.

Dentro da caixa tem um mundo. Na verdade, é este mundo em que estamos, só que ligeiramente diferente. Eu vi, por exemplo, a praia do Leme da minha infância, só que estava cheia de borboletas coloridas que nunca existiram Me vi andando pelas ruas de São Paulo há anos atrás, quando a cidade ainda era estranha e desconhecida. Havia montes de foligem brilhante pelos cantos das ruas, mas eu andava exatamente pelo meio deles.

As minhas lembranças começaram a aparecer desordenadamente, mas sempre com detalhes diferentes. Quando olho dentro da caixa, sempre vejo as situações em God-Mode. E nos cantos, para onde eu não consegui olhar no passado, ali dentro eu vi outras formas de entender. Quando tentei me concentrar numa situação específica, as imagens da caixa se tornaram mais nítidas, as impressões mais fortes e definidas.

E daí eu vi. Finalmente eu vi, de lampejo, porque o medo de fez jogar a caixa no chão. Vi um sorriso, vi honestidade e mentira juntas de mãos dadas. Respirei fundo e olhei de novo, para gravar as imagens na cabeça. Ouvi ele dizer Please don't let this turn into something it is not. I can only give you everything I've got. I can be as sorry as you think I should. E assenti. Acho que aprendi. Mas para garantir, guardei a caixa no meu baú. Quem sabe quais serão os próximos capítulos?

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Segunda-feira, Abril 16, 2007

Não fui

ArmárioNão fui à academia
Não fui para Porto Alegre
Não fui ao médico
Não fui para Florianópolis
Não fui ao churrasco
Não fui à Lôca
Não fui ao Rio
Não fui à festa de aniversário da madrinha da amiga
Não fui ao cinema
Não fui à manicure
Não fui fazer caminhada
Não fui na costureira

Mas fui à Peg e Faça e finalmente comprei uma estante para o quarto e um armário para a cozinha. Estou tão orgulhosa de mim mesma que até postei fotos da montagem no Flickr, apesar da baixa qualidade. É preciso frisar que a montagem jamais teria sido possível sem a inestimável ajuda da super-mulher Lijam. Ela foi devidamente paga em latinhas de Skol estupidamente gelada.

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Sexta-feira, Abril 13, 2007

Kiss and tell

Hoje é dia do beijo. Também é dia do azar. Beijo ou azar?
Ou ambos?
Que azar beijar?
Ou azar o seu que não beija?
Eu beijo.
E não beijo.
E beijo de novo, só com os olhos.
Que azar.
Que beijo.
Que vontade de beijar, mas que medo do azar.
Quanto azar!

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Domingo, Abril 08, 2007

Wheels

Pode ter sido quando eu pisei no calçadão pela primeira vez. Talvez tenha sido quando encostei as mãos no guidão da bicicleta. Ou ainda quando o primeiro gole de água de côco gelada chegou na minha garganta. Realmente não sei.

Há tardes em que as coisas são assim: você está há muito tempo sem sentir e de repente vem o tsunami. A maresia, o sol, o vento, o calor, o suor, a borracha do guidão, a borracha dura do selim, a camiseta branca, o chinelo de dedo, a areia que consegue entrar em quase todos os lugares. Há também tudo aquilo que é inexplicável e clichê, tudo o que entra como informação visual e é imediatamente transformado em emoção.

Sorri em silêncio. Pedalei. Sorri mais e acelerei.

Por falta de prática, perdi o controle dos pedais com pontas afiadas de ferro e logo meus dois calcanhares estavam cobertos de sangue. Não havia dor de verdade, só o sangue muito vermelho e quente pintando os calcanhares como tinta guache. O fluxo do líquido foi puxando mais líquido dentro do meu corpo até que os nós da minha garganta foram se desatando. Finalmente, pensei. Liberdade. Alívio.

Respirei fundo, continuei pedalando até chegar na areia. Larguei a bicicleta no chão mesmo, quem se importa?, fui correndo pela areia, que entrava nos machucados. Antes de mergulhar os pés na água gelada, olhei para eles e vi os calcanhares pintados. Bonitos, pensei. Sorri e pulei com os dois pés juntos dentro da água, sentindo aquele choque gelado percorrer meu corpo.

Eu estou viva, quis gritar.

Sorri debaixo d'água e prendi a respiração. Deixei o frio me abraçar até que não o sentia mais. Voltei, retomei o caminho, a bicicleta, a vidinha. Voltei sorrindo para mim mesma. Voltei e vi a velhinha corcunda, vi o menino de rua, o casal estrangeiro, as prostitutas, as moças de família, as crianças suburbanas, os vendedores de matte e queijo coalho. Vi os barcos dos pescadores, os iates, os soldados. Vi os hippies e os surfistas. Vi a juventude dourada e os caras das gangues. Vi os mendigos e o entregador da lavanderia. Vi e sorri como uma boba, como se entendesse a vida.

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Quinta-feira, Março 29, 2007

Vozes

Eu ouço vozes.

Às vezes elas são manhosas e isso me derrete. Outras elas são vozes estranhas, estrangeiras. Daí eu ouço de longe com os olhos fechados. As outras eu ouço só com os olhos. Alguns dias amanhecem cheios de vozes chorosas, já outros são preenchidos de outras tantas vozes felizes. Ouço a voz do silêncio, do medo e, ao fundo, discreta, a voz do desespero. Ouço os gritos, o choro, o riso e a celebração. Ouço a preocupação e a gratidão. Gosto de ouvir o coro da voz do carinho com a voz do desejo, sussurando.

E às vezes eu ouço a minha voz feliz. Como hoje.

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Terça-feira, Março 27, 2007

Melody of a fallen tree

Quando eu era mais nova, fui dormir uma noite encharcada e sem cobertas. E quando acordei no dia seguinte, coisa muito estranha, minha boca tinha sumido. Não reparei logo ao despertar, fiquei enrolando na cama por uns minutos antes de me arrastar até o banheiro, evitar o espelho e lavar o rosto. Quando minhas mãos percorreram meu rosto foi que percebi. Me olhei longamente no espelho, apenas os olhos gritando. Logo passou e comecei a gostar.

Eu não precisava mais falar nada no café da manhã, podia apenas gesticular dentro do ônibus, evitar apresentações em sala de aula , principalmente, podia evitar conversar no almoço. Em silêncio eu passava as horas do trabalho e do jantar. E em silêncio respondia com gestos às indagações da minha mãe sobre o almoço do dia seguinte.

Andava de ônibus olhando pela janela com uma expressão trágicamente vitoriana, em silêncio quando pisavam no meu pé. Como não podia falar, sempre que me vinha uma palavra à mente, era obrigada a engoli-la. E assim fazia, sentindo as pontas das letras descendo pela minha garganta e queimando no estômago. Nem todas as palavras têm gosto ruim, descobri. Algumas são saborosas de tão amargas, outras enjoativas de tão doces.

Sem falar, passei a ouvir tudo e atribuir às coisas o significado que me aprazia. Quebrei a cara, o coração e as mãos. Parti a cabeça de pessoas. E continuava a engolir as palavras, recusando inclusive a escrita. Aprendi o sabor das letras e pensava no impronunciável só para satisfazer a gula. E assim foi até que tropecei por distração numa perna de moço, estendido no meu caminho. Ele não me esperava, por isso me xingou, me empurrou, me abriu a boca com facadas e me forçou a um beijo cheio de palavras. E quando me soltou, levou tudo o que eu tinha, menos o som das palavras que continuava a usar para me xingar. Deixou minha boca finalmente aberta.

---- Inspirado por http://www.last.fm/music/Windsor+for+the+Derby/_/The+Melody+of+a+Fallen+Tree

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Sexta-feira, Março 23, 2007

Segredos

Na primeira vez, estava andando pela rua despreocupado. Viu duas mulheres discutindo calorosamente e resolveu interromper a música que vinha dos fones de ouvido para ouvir o movimento das pessoas e as vozes. Gostou de ouvir a discussão e mais ainda de ouvir aqueles comentários inusitados dos passantes, recortes de conversas sobre as quais só poderia conjecturar. Passou a andar devagar e tentar manter um ritmo diferente daquelas pessoas mais próximas. Assim havia mais variedades e seus pés não ficavam tão cansados.

Não sabia o porquê, mas se sentia muito desconfortável quando andava exatamente no mesmo ritmo em que um desconhecido na rua. Automaticamente mudava seu ritmo, trocava as pernas, tropeçava, parava para amarrar os cadarços do sapato batido de trabalho. Enquando se agachava, percebia alguns olhares furtivos que o contemplavam por segundos e os esqueciam imediatamente.

Não chamava atenção dos passantes, acabou adquirindo uma discrição investigativa que seus amigos não suspeitavam ser possível num rapaz tão alto. Tornou-se tão ousado que esticava o pescoço e encarava lábios, pescando palavras. Era seu esporte favorito e após 15 minutos ele parava para anotar as frases mais dignas de nota.

Andava chutando pedrinhas e de cabeça baixa quando se percebia observado, como se ainda fosse um menino. Como se fosse inocente. Andava, anotava, andava, anotava, observava e mastigava.  Passou a montar histórias com as frases capturadas, sagas inteiras de famílias e dinastias. Deu para andar até outros bairros, ouvir outras conversas. Sentia sede de palavras como outros sentem de cerveja. Foi a outras cidades, outros estados, outros países. Preencheu tantos cadernos que não havia mais espaço em sua casa. Os vizinhos comentavam sobre sua solidão e aparente esquisitice, ele só sorria.

Foi na rua de sua casa em que ele ouviu finalmente as palavras que o libertariam. Foram ditas em voz alta, por uma mulher estridente, mas não importava. O que ele ouviu bastou, por fim. E assim ele voltou para casa e, com paciência, levou folha por folha dos escritos de anos até o mar. Lá todas o falatório foi afogado sem piedade, para que ele pudesse voltar a não ouvir.

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Terça-feira, Março 20, 2007

Ladybugs

Há muitos meses eme sentei no banco da praça e decidi que veria o tempo mudar. Veio sol, nuvens, luar, estrelas, fumaça, chuva, lama, vento, folhas caídas, mais chuva, mais sol e tudo de novo. Veio o calor intenso, o suor noturno. Me deitava no banco, mas não conseguia ficar parada. O calor parecia vir de dentro do meu corpo e invadir o restante do mundo, como um aquecedor de ficção científica.Aí veio o vento e as noites ficaram agradáveis. Já não me retorcia deitada na grama, ficava comportada sentada no banco. Não dormia, porque as estrelas não deixavam. Dormir é para os fracos, gritava a música nos meus ouvidos, e eu acreditei. Não dormia, mas sonhava. Sonhava o dia inteiro enquanto via as crianças, os velhinhos, as babás, os cachorros bravos, os vendedores de sorvete e água de côco. Sonhava com um banco de praça mais legal. Passei a olhar mais para as árvores do que para as pessoas, porque elas eram menos previsíveis. E nas árvores vi de muito longe um mundo diferente.

As formigas e joaninhas estranhos brincavam o dia todo, subindo e descendo. Se protegiam nos buracos do tronco, tomavam sol do alto dos galhos, nadavam nas piscinas em torno das raízes. Um dia não aguentei mais ficar sentada olhando e fui para perto da árvore. Eu também queria participar daquela vida. Os insetos me olharam e começamos a conversar. Não falávamos, desenhávamos. Criei histórias lindas com um graveto na terra, as joaninhas usavam as trilhas como novas rotas de passeio.

Sorri e deixei de prestar atenção no tempo. Meu telefone ficou sem bateria e eu não reparei. Deixei de comer, mas não sentia fome. Eu queria estar ali e só dormia quando elas dormiam. À noite elas me cobriam o corpo todo e eu virava uma forma humana preta e vermelha, fervilhante. Sem me mexer, eu sentia meu corpo sorrir por inteiro.

Um belo dia de sol eu disse que nunca mais voltaria para casa, para o meu mundo. Queria ficar ali. Foi uma declaração de amor fraternal e um elogio às novas amizades. Elas me supriam e eu era feliz. Mas eu não tinha notado que o inverno havia chegado. Não havia comida para mim, não havia abrigo grande o suficiente, as pessoas me olhavam estranho. Os insetos também me olharam estranho. Esperavam que eu voltasse para casa e continuasse a vida que deveria ser a minha. Gostavam das minhas brincadeiras, mas estavam cansados já daquela presença gigantesca. Queriam sua rotina de volta, queriam as memórias e nada mais.

Eu entendo, menti. Me levantei de vagar, sacudi as roupas rasgadas para que caíssem as folhas mortas e parti.

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Segunda-feira, Março 19, 2007

42 dias

Quando os primeiros pingos cairam, os olhos por trás do vidro os seguiam divertidos. Algumas horas depois, o ritmo da chuva havia parecia o de uma ducha forte e constante. Durante os primeiros dois dias, ela não fez nada além de olhar pelo vidro e admirar as gotas pesadas que caiam sempre no mesmo ritmo.

Depois da primeira semana, teve que fechar completamente as janelas. No vigéssimo dia, a água começou a passar por baixo das esquadrias. Formou-se a primeira poça. No dia 32, a água escorria pelas paredes para dentro da casa. Os panos não conseguiam mais conter a torrente, uma cascata foi formada e o chão da sala estava coberto por uma fina camada de água.

No dia 40, a água já alcançava a cintura e não era mais possível cozinhar ou dormir. A cama estava submersa há dias, os sofás inutilizados e os tapetes aprodrecidos. Enquanto andava pela casa, lutando contra os móveis flutuantes, pensava nos anfíbios que roçavam nas suas pernas e os insetos que subiam pelas suas costas. Não penteava os longos cabelos há tantos dias que a umidade havia transformado os cachos em aglomerados de cabelo embaraçado e desgrenhado.

E finalmente, no 42o. dia, a porta da frente se abriu. Ela respirou fundo e se voltou para a porta, antecipando em sua mente o que estava prestes a ver. Seus lábios se contorceram num sorriso hesitante enquanto sentia a água escorrer. Fechou os olhos para não perder mais nada.

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Domingo, Março 18, 2007

Linguas minhas

A lingua das piadas é o inglês.
A lingua das ordens é o alemão.
Já o italiano é a lingua para cantar.

A lingua das orações é o hindi.
E a dos sonhos é o árabe.
A lingua dos poemas é o português.
E o francês é a lingua da sedução.

A lingua das histórias ao redor do fogo é o russo.
E a lingua da flexibilidade é o hindi.
Mas a lingua para pensar é o grego.

A lingua do sexo é o espanhol.
As linguas dos homens são quentes.
A das mulheres é macia.
E a minha lingua tem vontades.

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