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27 quilômetros até a fronteira. Pedi as contas de quantas vezes já estive aqui, contando. Às vezes tenho pressa de chegar, mas hoje não. Hoje essa estrada escura é uma viagem no tempo. Músicas desconhecidas inundam o carro, preenchem os espaços entre os vidros fechados e me causam essa certeza de que todo esse deja vu é fora de propósito.
Foi em outra vida, tenho certeza. Me vejo trêmula, confusa, tensa, insegura, sorridente. "Borboletas no estômago". Me vejo caminhando entre os caminhões estacionados, me vejo observando a estrada escura, me vejo tentando não tremer. Me vejo tentando não ser demais.
Quanta bobagem. Quantos erros de perspectiva no desenho que eu fiz na minha cabeça. Hoje eu sei alguns séculos além do que eu sabia naquela noite.
Eu sei. E no entanto o que sinto é a textura dos cabelos macios, suados e o cheiro bom de gente amada. Se eu abrir agora os dedos vou sentir os cabelos que pareciam fazer cafuné nos meus dedos e não o contrário. Um daqueles momentos pequenos, perfeitos. Bliss.


